sábado, 18 de setembro de 2010

Versando liberdade no Sarau da Biblioteca de São Paulo

Implodido o Complexo Carandiru, um novo alicerce fora construído. Moderna, a Biblioteca de São Paulo traduz interatividade. Livros, computadores, cursos, palestras, shows e oficinas ao alcance de todos.

E como não poderia faltar, ao sábados, das 16 às 18 horas, acontece o sarau dos poetas.

Aberto a que tem algo a dizer, o recital recebe diferentes manifestações artisticas.


Ao microfone, o apresentador e versador Galdino. Quem chegar é benvindo e recebido com calorosos aplausos. Ali o anônimo tem vez e voz.


Quem lê não mosca, voa mais alto. Quem escreve vai fundo, não boia no raso. Poesia não é red bull, mas dá asas!


A Biblioteca de São Paulo fica no Pq da Juventude, na avenida Cruzeiro do Sul, na estação Carandiru do Metrô.

De voz a um poema. Compareça!

Aos amigos e poetas que nos brindam sempre com duas horas semanais de fértil companhia, dedico o poema
Última Paisagem, da poeta Lupe Cotrim.

Lupe Cotrim Garaude ou Maria José Cotrim Garaude Gianotti, nasceu em 16 de março de 1933, na capital paulista, onde, aos 17 anos, já estudava literatura, línguas e artes.

Aos 22 anos, em 1955, lança seu primeiro livro de poemas: Raiz Comum.
Bonita, talentosa e avançada pro modelo de mulher da época, em 1961, faz um programa na TV e passa a ser reconhecida publicamente.

Começa a estudar Filosofia na USP em 1963. Sua rebeldia em discussões a aproxima do professor José Arthur Gianotti, com quem se casa um ano depois de conhecê-lo.

Tiveram dois filhos: Lupe Maria Ribeiro Lima e Marco Garaude Giannotti.

Ativa, vivendo o período da ditadura militar, em 1968 é nomeada professora de Estética da Escola de Comunicações e Artes da USP, cujo centro acadêmico, o ECA, leva seu nome.

Conta-se que certa vez sendo chamada de poetisa teria respondido: “Poetisa é mulher de poeta. Eu sou poeta!”

Profunda vida curta. Aos 37 anos, já doente de câncer, veio a falecer em 18 de fevereiro de 1970.

Tão logo após, foi concedido o prêmio Governador do Estado ao seu livro Poemas ao Outro.


Quando eu morrer,

se morrer,

quero um dia de sol,

denso, cintilante,

escorrendo-me pelo corpo

seus dedos quentes.

E quero o vento,

um largo vento dos espaços

que me respire e me arrebate

no seu fôlego

por outros continentes.

(...) quero pegar a vida,

palmo a palmo,

traço a traço,

num dia esfuziante de azul,

com o mar na boca e nos braços.

Quando eu morrer,

se morrer,

eu que renasço a cada momento,

criando íntimos laços

por toda a natureza,

eu que perduro no eterno

da intensidade,

quero morrer assim:

os olhos na distância

do entendimento

e o corpo penetrando na beleza,

passo a passo,

Meu fim transformado em luz

dentro de mim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Palavra poder para o povo. Não para esse!

A luz que brilha no Sarau da Ademar reflete resistência...

Dois anos de Sarau da Ademar. Festa dos versos. Uma semana de comemorações. Cidade Ademar é o destino. Saímos do Campo Limpo e a distância percorrida bateu hora e meia em dois busos.

Tiramos de letra. Dia 12 de setembro, domingão! No tardar das 17 horas aportamos na quadra poliesportiva situada na rua Druval Pinto Ferreira s/n, esquina da rua Anália Maria de Jesus, na altura do nº 3144 da avenida Cupecê.

Usando o espaço como sede, pela segunda vez, o Sarau da Ademar esteve abrigado anteriormente em dois bares. Em fincar duradoura raiz, agora batalha este solo.

Árdua batalha! Por se tratar de local público, compreensão deveria haver. Idas e vindas para conversar com o subprefeito e atendidas pelo Chefe de Gabinete. Canseira.

Por ignorar sentimentos e anseios alheios, o chefe não doutora nada.

No sarau de agosto, o esculápio liberou cadeiras e mesas e um eletricista que só foi chegar à noite, depois de insistentes chamados.

A luz foi puxada de um ponto em frente, de uma Ong - casa de terceira idade - que não avisada culpou o evento pelo gato feito.

Ontem, por ocasião do 2º aniversário, o homem do gabinete deu costas aos apelos e ratificou o costumeiro “se virem”. Na cabeça dele deve passar: “Cultura? Sarau? Pra que ler, pra que livros? Que pedantismo desse povo!”

O fato é que a dita quadra poliesportiva está um caco. Sem banheiros, invadida! Paredes e teto com reboco queimado. Largada. O gradil tombado.

A cobertura, telhas de zinco, já com diversos pequenos buracos. Duas traves limitam o piso liso em evidente desgaste.

Os meninos do entorno ali praticam eventuais peladas. Não há nada em termos de conservação que caracterize qualquer preocupação do administrador municipal. Muito pelo contrário.

Aliás, toda aquela faixa de área pública que segue no arredor da quadra também está abandonada. Um desmazelo completo.

Quem tem cor age. Coragem dessas meninas. Apesar dos contras, mãos à obra. E retiraram vários sacos de lixos. Não havendo encanamento, o jeito foi trazer água e desinfetante pra fazer a limpeza.

Os poetas foram chegando vindos dos extremos de São Paulo. A alegria do encontro, diante do visto, ganhou força.

A princípio, faróis de dois carros garantiram iluminação. Depois, uma vizinha de boa vontade permitiu extensão de cem metros com bico pra lâmpada e som.

Misto de indignação e revolta. Tudo que o Sarau da Ademar quer é cuidar do local. Não está pedindo dinheiro, nem favor, nem doação. É a comunidade querendo preservar e conquistar o que lhe é de direito.

Memorize! Olha a humildade. Vejam a foto descrita acima. Por falta de espaço condizente, a poesia da Ademar cava e cava. Por falta de uma Casa de Cultura, mas pra que uma Casa de Cultura?

- Esses caras são gozado. Ora! Uma Casa de Cultura!

- Ei! É preciso tomar cuidado. Esse povo da poesia trafica palavra e otimismo.

Qual o quê, cadê ouvidos que escutem e viabilizem o projeto desse coletivo?

Tudo que o Sarau da Ademar quer é fazer cultura. Abrir espaço para quem quiser comungar a palavra, o verso, sua arte, criar uma biblioteca comunitária.

Mas, como resposta, obtém da administração, o vazio. Além de cabide de emprego, pra que serve a subprefeitura da Cidade Ademar e outras tantas empalhadas em Sampa?

O pedido foi: mesa, cadeiras, banheiro químico, iluminação. Para esses quesitos disseram não ter verba. E isso precisa comprar? A prefeitura tem isso a rodo, desocupado.

O que falta é boa vontade. Não arranjaram nenhum. Que seja! Ao menos um ou outro. Mas, não! É NENHUM QUESITO! Me perdoem, mas vão ensacar fumaça.

Não se enganem. Atitudes mesquinhas como essa, não irão arrefecer o ânimo da poesia em movimento.

O Sarau da Ademar, mesmo na penumbra, irradiou luminosidade. A essência do seu perfume é ação e atende por nome carinho. O comando, em sua maioria, é de mulheres manifestas.

Todos os convidados permaneceram fiéis à causa. O escritor Sacolinha emanando letras dos dois novos livros em lançamento.

Chegou o povo da Brasa e uma pá de gente. Carlinhos, Augusto, Otilia... estudantes de jornalismo gravando, fazendo matéria.

O Espírito de Zumbi fechou a roda. A dança, o canto, o folclore, sonhos que nos une.

O recheio somos nós, todos anônimos. E uma coisa é certa: quem lá chegar é bem chegado e o coração não se ausenta mais.

Com os poetas da periferia não tem tempo ruim. Improvisa-se até o ambulante. E a cerveja, o refrigerante, o churrasquinho, e o salgadinho, acompanharam duas horas do recital.

Da Lids, com seu arco e flechas empunhado, me chegou e-mail cheio de reflexão:

“Sabe, ontem, depois que o Espírito de Zumbi foi-se embora, começamos a desmontar, carregar, enrolar todos aqueles fios, levar lá na casa daquela minha amiga.

Quando terminamos sentei, e um pensamento invadiu minha mente com tristeza.


Me senti aflita, pensando. Termos que ter na manga um plano B, um plano C, mas não podia ter acontecido de várias pessoas ficarem esperando ligar luz, esperando o Sarau começar.


Tem horário, divulgamos isso. Me senti imatura, como se nunca tivesse feito Sarau na minha vida.


Sentada, continuei refletindo: A gente é realmente loka. Sem a mínima estrutura. Não temos microfone, um local seguro para fazer nada, nada mesmo.

Somente a vontade de fazer acontecer, doa a quem doer. E dói em nós.


Hoje, com certeza, estamos todas cansadas, quebradas, mas apesar dos pormenores, foi uma tarde/noite maravilhosa. Cada sorriso sincero, cada abraço, cada verso declamado...


Da luta eu não me retiroooooooooo!!!!!


Palavra, poder para o povo.”


Marco Pezão


Os Poetas comentaram:

Camila Caetano (Sarau da Ademar):

“Em relação ao sarau, são dois anos de resistência, de luta, de força, de lágrimas, mas de muita alegria. É prazeroso fazer parte desse movimento, pra gente: de periferia para periferia.

Em relação ao apoio, por vezes fomos solicitar na subprefeitura e já que pagamos todos os impostos porque não temos retorno? Nos somos voluntários desse trabalho. Não pedimos nada para nós. É pra cultura.

Fazemos com o coração, na paixão, por amor. Não queremos nada pra gente. Queremos levar para as pessoas um pouco mais de educação, de sensibilidade. Ampliar o horizonte das crianças da comunidade. Criar oportunidades.

E não temos retorno nenhum. De prefeitura ou de governo. Somos ignoradas a todo instante. Hoje aqui sem luz estamos festejando o Sarau da Ademar e por isso são dois anos de resistência.

Tudo o que fazemos tiramos do nosso bolso, do coletivo”.


Vagner (Poesia na Brasa):

“Hoje aqui no Sarau da Ademar, completando dois anos. E essa postura da subprefeitura de não cumprir com a palavra dela, de mandar luz, de mandar os banheiros. Isso mostra mais uma vez que os caras não querem que a gente faça o que estamos fazendo.

Porque é a primeira vez na história que o pessoal de São Paulo se movimenta por si só. E tão se juntando: norte, sul, leste, oeste. Isso assusta um pouco. A gente tá fazendo poesia, livro, sem perguntar pra ninguém como é que faz e sem pedir autorização.

Acho que os caras não querem que a gente faça. A literatura nunca esteve na nossa mão. Os caras escrevem sobre nós, mas, nós mesmos, nunca. Com exceção de uns poucos, Carolina, Solano Trindade. O movimento da poesia tá num crescendo, tamos questionando geral, e isso assusta um pouco quem está no poder.

Essa conduta de hoje é uma forma de fazer a gente parar. Mas com adversidades a gente está acostumado e não vamos parar por causa disso. A gente sai daqui mais forte. O Sarau da Ademar é coirmã. É tudo periferia. Zona norte ou zona sul dá na mesma. Tamo junto!”

Lígia (Sarau da Ademar):

“Indignação. Frustração. Porque? A gente se vê atrelado. Eles nos prendem. Eles dizem: Vocês não podem pensar. Pessoas que pensam dão trabalho.

A gente não vai dividir conhecimento com vocês. Conhecimento é pra aristocracia. Vocês não podem querer poesia.


Você só tem direito a ônibus lotado. Esgoto a céu aberto. O fedor do pobre.

O pobre tem que viver assim. Lugar limpo e cheiroso só pra burguesia. Pra nós só resto.

Se a gente evoluir quem vai limpar a privada e o chão sujo onde eles pisam?

Valeu Sarau da Ademar pela resistência. Valeu pela fortaleza. A gente vai dar muito trabalho.”

Lids (Sarau da Ademar):

“Então, por um lado eu penso que a gente é doida mesmo. Por outro, cada vez mais entendo como essa coisa da poesia pegou a gente, pegou o coletivo do sarau da Ademar. Porque aos trancos e barrancos a gente dá um jeito e faz com luz, sem luz, com tudo isso.

A princípio a gente ficava mercê do dono do boteco. Então a gente não tinha liberdade para agir.


Agora existe essa quadra que é pública. E, se é pública, super entendo que ela é nossa e pertence à comunidade. E nós somos a comunidade.


A gente fica chateada pra caramba porque não existe apoio. Não existe nada.Tem tanta gente fazendo maldade e outras coisas.


A gente faz sem fins lucrativos. Apenas pelo prazer da poesia. Da literatura. De incentivar a leitura, a escrita. Da amizade. De encontrar novos amigos. De comungar a palavra.


É complicado. É luta. É trabalho de formiguinha, mas no final é satisfatório pra nós. Estamos com o sarau faz dois anos e vamos engatinhando, nem caminhando ainda, porque a gente não conseguiu um local fixo.


Ocupamos essa quadra e daqui a gente não sai. Com luz ou sem luz, apoio ou sem apoio, a gente não sai.


Tive a idéia de mobilizar outros coletivos que também estão nessa luta por espaço pra fazer um ato em frente à subprefeitura.


Hoje nós entendemos que temos força e não vamos desistir. Se a intenção deles é essa, então que nos aguardem”.

Camila Milani (Cooperifa):

Realmente é uma grande alegria porque são dois anos de resistência. E a gente aprendeu com a vida que a poesia salva. Que a cultura salva e se existe algum caminho, esse caminho é a cultura e a poesia. É o abrir de novos horizontes, o despertar.

Essa indignação é porque a gente só pode contar com nos mesmos, além de amigos. A gente ocupou o espaço. Pediu autorização. Fomos na subprefeitura e tivemos apoio e ficou tudo acertado pra gente fazer a festa hoje. Na última hora disseram que não tinha verba pra trazer as cadeiras, as mesas, o banheiro químico, a iluminação.

Mas graças a Deus existe vontade, a fé que move montanhas. E a gente chama povo de longe. É de Suzano, da zona norte, da leste, da sul, tá todo mundo aqui na maior alegria. Tá todo mundo aqui pra comemorar e celebrar dois anos de poesia na quebrada.

Reflexão

Somos tão e somente

A semente que germina

No momento presente

Pulsante agora energia

Somos no mínimo

Tudo quanto ou tanto

... o que pensamos

O que fazemos!

Somos tão e só 'mente'

Responsáveis por nós mesmos

... transformação; atitudes; ideias; estórias mutação

Entre dúvidas vivências

Impossibilitamos realizações

Quanto mais expectativas menor a condição de troca

Entendendo isso

Adquirimos experiências maravilhosas, e conseguimos de fato

Travar relações interessantes com a realidade

As decepções por vezes são inúmeras

Por outras, de modo a equilibrar com acertos

Estamos todos a uma grande distância da naturalidade

A intensidade do amor

É a medida do nosso comprometimento

Com a nossa existência e a do outro

Um espelho

No qual podemos observar

A nossa atuação no mundo.

(As legendas das fotos formam o poema Reflexão, da poeta Lids Ramos)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Oficina de Criação Literária com Marcelino Freire e Livros Artesanais, no Espaço Artemanha

O escritor Marcelino Freire e as poetas do Sarau da Ademar...

As inscrições estão abertas para a Oficina de Criação Literária com o premiado autor Marcelino Freire, no Espaço Artemanha de Teatro, na Estrada do Campo Limpo nº 2706, subsolo, bairro de Campo Limpo, S/P.

As atividades acontecerão no mês de outubro, nos dias 02, 09 e 23, sábados, das 14 às 18 horas.

Marcelino Freire nasceu em 1967, em Sertânia, PE. Vive em São Paulo desde 1991. É um dos principais nomes (e divulgadores) da nova geração de escritores brasileiros, designada “Geração 90”.

Escreveu, entre outros, “Contos Negreiros” (Prêmio Jabuti 2006) e “RASIF - Mar que Arrebenta”, ambos publicados pela Editora Record.

Vários de seus contos foram adaptados para teatro e traduzidos para outros países. Em 2004, idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê Editorial).

É o criador da Balada Literária, evento que, desde 2006, reúne anualmente quase uma centena de escritores, nacionais e internacionais, no bairro paulistano de Vila Madalena.

Mantém o blog eraOdito (http://www.eraodito.blogspot.com/), apontado em recente pesquisa da revista “Bula”, como um dos 20 blogs mais influentes da rede.

Transformando os textos produzidos em livro

Paralelamente, nos dias 16 e 30 de outubro, sábados, das 14h às 18 horas, no Espaço Artemanha, o Projeto Dulcinéia Catadora estará desenvolvendo a Oficina de Produção de Livros Artesanais.

Os textos criados durante a Oficina do Marcelino Freire irão compor o livro feito de material reciclável, produzidos pelos próprios alunos.

A Oficina de pintura de capas de papelão e confecção de livros tem como público alvo, jovens ou adultos. Não é necessário ter experiência com desenho ou pintura.

A atividade tem como objetivos mostrar uma forma original e acessível de produção independente, que possibilita a divulgação de trabalhos de escritores iniciantes.

Valorizar o papel do catador como reciclador, cuja contribuição é fundamental para o meio ambiente;

Proporcionar uma experiência de reutilização e transformação de um material muitas vezes descartado;

Desenvolver o potencial artístico e criativo através da livre expressão.

Inscrições grátis e número de vagas

São 30 vagas disponíveis e as inscrições devem ser feitas previamente com a Lids Ramos, via e-mail: lidsramos.poesia@poiesis.org.br

O telefone para contato é 3331- 5549, com Lids, Cris ou Marco Pezão.

As Oficinas são gratuitas e fazem parte do Projeto Mapa da Poesia, da Poiesis - Organização Social de Cultura – e conta com o apoio do Espaço Artemanha de Teatro.

Endereço: Estrada do Campo Limpo nº 2706, subsolo, bairro de Campo Limpo, S/P. Telefone: 5844 – 4146


Cena de espetáculo, no Espaço Artemanha de Teatro

terça-feira, 14 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

O padrasto

Ressoa soalho
Arrastado movimento
Circular ao eixo só

Causticante retorno
Fardo novo antecede
Atado passo a girar

Hilário silêncio
Faz-se horas a fio
Monótono circuito

Ai! Convívio castigo
Desertas palavras
Paciente volver

Um agente aflora
Últimos pingos de calmaria
Explodem sede em questionar

A boca treme
Os lábios fremem
Enjaulada voz

- Mãe! Porque eu ando em círculo?

Da poltrona às costas,
Austero, o padrasto espeta:

- Quieto menino senão te prego o outro pé!

Marco Pezão

sábado, 11 de setembro de 2010

Gol em Bagdá

Rojões estouram ao léu.
Iluminando, de Taboão, o céu...
Futebol! Festivo domingo anuncia conquista...
O Corinthians, em 2003, é campeão paulista!

Um morteiro de porte
Perto de mim explodiu forte.
Cheiro de pólvora, enxofre, na memória um corte:
Mísseis invadem Bagdá, sem convite nem passaporte.
Nada os detém, nenhuma ordem que os aborte.
Levam na ogiva o endereço de transporte,
Ao destinatário, o encontro com a morte...

Tigre e Eufrates, arqueológicos rios...
Ali registram invasões milenares...
Mouros, hebreus, faraós, poderosos califas...
O tempo, areia, ampulheta, radares...
Camelos, cavalos, aviões, tanques e a baioneta..

A história do mundo segue na cauda de um cometa...

Bagdá
De mil e uma noite,
Bagdá
Atingida por estelar açoite...
Americaningleses em sofisticado bangue-bangue,
A mesopotânica terra cobrem de sangue...

Esconderijos, escombros exangue.
Fura-bunkers! Bombas mãe! Mãe?
Onde está meu filho?
O sobrevivente!
Medo e revolta plantam o espinho no deserto.
Delinqüente, resistente...
Mas nada perturba o sono tranqüilo
Do ianque presidente.

Desarmar o bandido interessa. Mordaça!
Manhattan! Kamikazes-suicidas! Desembaça!
Torres gêmeas, a vingança esvoaça...
Químicas e biológicas armas - troço, traça! -
Destruição e efeitos que a razão ultrapassa.
Criados por quem? Vendidos por quem? Ameaça!
Em vão; o clamor que a paz se refaça.
A gasolina é petrodolar, desgraça...
O amor se nega, o dom da palavra rechaça...
As cidades de Basha e Bagdá, arregaça.
Torna presa, a caça. O vento esfumaça...
Crianças, mulheres, velhos homens, escorraça!
Em nome do bem esbagaça a bagaça...
O mocinho é o maior engana-massa!

Aqui, em volta, na nossa periferia,
Bandeiras alvinegras festejam...
Copos cheios em risos de euforia.
Estalar de fogos, tiros, também barbaria...

Homo Sapiens, próspero decadente...
Os mísseis inteligentes
Marcam gols e matam inocentes...
Em mais essa burra bravata humana,
Ascendente, inconseqüente, imprudente, onipotente...

Bagdá
De mil e uma noite
Bagdá!

Timão, eh! oh! Timão, eh! oh!

Marco Pezão

Isabel

Isabel!
De volta pro pedaço
As ruas
As casas
Essa melancolia
As pessoas nem se olham
E o medo?

Aqui estamos no sacolejo do bus
Num canto esquecido do mundo
Na lembrança de Deus
E longe da memória dos homens
Que governam nosso país.

Você triste
Ônibus sem graça
Cara coberta pelas mãos
Sorriso raro
Olhos espertos
Estão de preguiça?

Que bate na cabeça da rosa
Que desabrocha
Em meio de dores
Luta, ódio, esperança?
Esfrega, arrocho
Poucos amores?

Em ter que se conformar trabalhar
Conformar trabalhar
Conformar trabalhar...

Nós, na face da Terra
Somos gente distante
Eu, amigo
Você garota
Viagem, sofrimento, alegria

Você é o urbano amor
Que falta no meu dia a dia
Isabel!

Marco Pezão

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Será que pode?

- Que diabo é esse batendo na lataria, 125?

- Encosta, 53! É o Papel correndo atrás do ônibus.

- Não para não, motorista! Tá fora do ponto. Vamos embora!

- Logo cedo estressado, tricolor?

- E não é pra tá? Outra vez, em frente ao portão de casa, tinha bosta redonda feito uma torta.

- Muuugi, boi...

- E, na calçada, uns cocozinhos parecendo caroço de azeitona.

- Mééééééé...

- Ufa! Valeu, seo Tobinha. Bom dia!

- Bom dia, Papel! Por pouco ficava, se faço a curva, só amanhã.

- A solução de todos os mistérios, aparentemente intransponíveis, está na firmeza do pensamento. Graças, a ele, viajo a bordo do sucesso.

- Sem você, a viagem não ia ser a mesma...

- Reciclei um livro de auto-ajuda e resolvi pôr em prática os ensinamentos. Não sou mais um peão perdido no tabuleiro de xadrez. Sou torre medindo adversidades, minha postura agora é de xeque mate.

- O que seria do rei, se não fossem os cavalos?

- Deus me dá força pra empurrar a carroça, e o resto eu faço. A concorrência aumentou muito, porém, o sol brilha para todos em maior ou menor escala; isso depende da eficiência do trabalho, do acontecimento imaginado por mãos fecundas. E, com sua licença, seo Tobinha, vou atuar em grande estilo.

- O palco é seu.

- Senhores e senhoras, Alexsandro Papel, reciclagem de papelão e artigos de papelaria, feliz em compartilhar suas companhias, deseja a todos um ótimo dia. Acompanha essas palavras matinais, um pedido de desculpas.

A primeira viagem traz saudades da cama e, de repente, um chato, se fazendo ouvir, falando feito despertador. Sinto muito, mas é meu serviço e humildemente peço colaboração.

Vou estar distribuindo uma sacolinha. Leiam, por favor, a mensagem estampada. A Fundação Sol Nascente - que eu represento – não deseja dinheiro e , sim, que o espírito de solidariedade se manifeste em cada um dos passageiros.

A grandeza de um homem, mulher ou criança, se mede pelo tamanho de suas ações, socialmente praticadas. Por favor, senhor, segure uma sacolinha. A senhora, por gentileza. Você, jovem... De que maneira ser solidário em posse de uma sacolinha?

É simples. Tudo que é papel, papelzinho, papelzão, papelão, não jogue fora. Guarde na sacolinha. A sacolinha é um símbolo de consciência.

Usem sacolas descartáveis, sacos de lixo. Façam mutirões. Juntem cadernos velhos, calendários, agendas, notas fiscais, tique de caixa registradora, jornais, revistas, livros escolares...

O trajeto luz leva sua carga. Pessoas quietas, olhares a frente em breves balanços. Alguns ouvem, outros bocejam indiferentes, mas, dona Dirce e a dona Angelina, conversam animadamente...

- Estava com vontade de fazer nhoc com massa de batata. Angelina, preparei uma receita que aprendi com a minha sogra, que Deus a tenha, é qualquer coisa de fenomenal.

Ei, Alexsandro! Tenho em casa alguns livros de receitas que já não me fazem uso. São receitas ótimas e simples de fazer. Como faço para entregar?

- Grato, dona Dirce! Note que dentro da sacolinha tem um bloquinho de papel reciclado e uma caneta muito bonita. E essa escreve! Por favor, anote seu endereço, telefone, que eu providencio a retirada.

E a colega ao lado tendo algum artigo de papelaria disponível, contribua; seja também uma primorosa doadora em nossa causa. Reciclar e solidarizar o conhecimento são atitudes nobres.

Livros novos custam caro. E a maioria da população não tem acesso a eles. Como desenvolver o hábito de ler, se os livros não circulam em liberdade?

Livro parado é livro amputado. Eles contêm histórias, conhecimentos. São pernas de escritores querendo chegar aos olhos dos leitores. E os deixamos acumulados numa caixa qualquer ou tomando pó na estante, no armário, na mala esquecida.

São atos e informações que repousam sem conquistarem suas metas. E nós, ao invés de sermos guardiões desnecessários desses tesouros, podemos colocá-los em circulação, devolvendo- lhes a utilidade devida.

Não tomarei mais o tempo precioso de vocês. Estejam alerta. A Fundação Sol Nascente, através da reciclagem, contribui para a preservação de milhares de árvores.

Árvores que purificam o ar, vital a nossa saúde, e que devem servir ao fabrico do papel.

E, como vocês já devem ter notado, dentro da sacolinha, a caneta e o bloquinho de papel reciclado fazem parte da campanha que a Fundação Sol Nascente vem promovendo no auxílio de jovens prisioneiros do mundo das drogas e do alcoolismo.

A ajuda que pedimos é de apenas um real. Um real somente e o abrigo continuará a oferecer tratamento médico e psíquico a todos os desamparados.

Infelizmente, aqueles que não dispõem o dinheiro no momento, por favor, me devolvam a caneta. Mas a sacolinha e o bloquinho de papel reciclado seguem na missão!

Em nomes dos perseverantes, a Fundação Sol Nascente aguarda seu contato ou visita para tornar-se um respeitável doador oficial...

Assim começou o dia igualmente a tantos outros dias que passam sem conta. Enquanto o ônibus percorre sua rota, Alexsandro Papel recolhe as canetas e prossegue da maneira habitual.

- Senhoras e senhores passageiros, eu me despeço com votos de reais felicidades. Alexandre Papel, reciclagem de papelão e artigos de papelaria...

Nisso foi interrompido por uma moça trajando preto, de penteado curto e azulado, com grandes brincos nas orelhas, piercings sobre a sobrancelha e nariz. Exibindo sua sacolinha falou em tom sério, mas exalando intimidade e zombaria:

- Alexsandro, querido! Papel higiênico usado, pode?

- Muuugi boi...

- Mééééé...

Marco Pezão

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Caso da noite

No assalto
O corpo no asfalto
O sangue
A ferramenta na mão
O revólver na mão
Tô contigo e não abro
Nem pra morrer
Largou o dedo do gatilho

O jornal cobria o peito
Os braços, a cara
Do roubo ele levou três pipoco

Já era!
Em volta do corpo
O povo rodeava
O povo murmurava:

- É assalto, é assalto?
- Quem é? É quem nóis conhece?
- Homem quando vê desgraça se rodeia...
- Se achega que eu quero olhar!
- Diz que não é daqui
- Diz que é um tal de Alemãozinho...
- Que treta bicho!

Da noite
A necessidade surge violenta
Berro, turbina, canhão!
Eram três, no assalto a padaria
Os fregueses, tensão!

- Todo mundo com a cara parede!
- Dinheiro, dinheiro, dinheiro pra mão!
- Vai! Vai! Se acanha! Se acanha, caralho!

Parecia feito
O pinote!
Veio o desfeito
O azar!

Homem da lei
Cumprindo sua lei
Deixou o copo
Sacou o 38
Se cobre!

Jogou fogo
Dois fugiram
Um ficou no relento
O povo olhando:

- Diz que tomou três tiros!
- E os outros?
- Dois correram pro lado do parque.
- Eu vi. Eu vi...
- Na carreira quase derrubaram a mulher que vinha subindo
- Um ladrão a menos

- Se afastem, se afastem!

- É ele! É ele ali que atirou!
- Levaram, levaram o dinheiro!
- Meu que mina! Olha que mina, meu!
- Pra calçada, pra calçada!
- Deixa trabalhar quem está trabalhando!

Passava das onze
O povo circulava
Na padaria assaltada
Tirando gosto se comentava o fato
Entre a cachaça e a cerveja

Mocinhas chegam sorridentes
A mãe procura o filho
A namorada, o namorado
O motorista, o operário
O cobrador, o professor, o carregador
O pedreiro, o servente
O irmão
Gente de toda criação
Gente da periferia
Chegavam, saiam, ficavam...
Nos olhos a visão do morto
No rosto a preocupação de se manter vivo
De se livrar de quem rouba
De amargar toda violência da vida

- Sai de cima que o defunto vai ficar sem ar!

No assalto
O corpo no asfalto
O sangue!
A ferramenta na mão
O revólver na mão
Tô contigo e não abro
Nem pra morrer largou o dedo do gatilho
O jornal cobria o peito, os braços, a cara!
Do roubo ele levou três pipoco
Já era!

Em volta do corpo, alguém comentava:

- É o desespero do povo...
- É o desespero do povo...
- É o desespero do povo...

Marco Pezão

segunda-feira, 6 de setembro de 2010